Artigos sobre teatroBaixar peças de teatroProcurar atoresEscolas e cursos de teatro

Obra Mutilada PDF Print E-mail
Julio Carrara
Escrito por Julio Carrara   
17/03/2010 - 04:20

Disponibilizei em alguns sites de Teatro grande parte dos meus textos para downloads. Melhor estar na rede do que na gaveta ou guardados em meu computador. E anexado ao texto, meu telefone e e-mail para contato e a frase clássica: Esta obra só pode ser representada mediante a autorização do autor ou da SBAT.  

Alguns grupos me procuram pedindo a liberação da peça que desejam encenar. E libero com o maior prazer. Outros simplesmente usam a obra, alteram o título para driblar a SBAT, já que as obras estão devidamente registradas. E o pior: tem a ousadia de adaptar o texto sem o meu aval e/ou conhecimento.

Porra, se acham que tem a manha de adaptar uma obra, por que não escrevem o seu próprio texto? Eu fazia isso quando comecei. Preferiria - se fosse o caso, estragar o meu próprio texto do que mutilar o texto de outro.

Alguns anos atrás, eu recebi um e-mail de um fulano dizendo que tinha escrito um texto parecido com o meu. E anexou o texto junto com a mensagem. Abri o arquivo e comecei a ler as primeiras linhas do prólogo. Não tinha nada a ver com o que tinha escrito. O choque maior foi ler a primeira cena. Aí sim fiquei surpreso. O texto não era parecido, mas igual ao que escrevi, com as mesmas palavras, as mesmas rubricas e a mesma formatação. O fulano só havia acrescentado o prólogo e o epílogo que não davam 10 linhas. Para me certificar, abri as propriedades do documento e encontrei o meu nome como autor e o título original do meu texto, que ele havia mudado também.  Tem que ter muita cara de pau para plagiar o texto de alguém, acrescentar algumas linhas, mudar o título, afirmar que a obra é de sua autoria e enviar para o verdadeiro autor para que ele lhe dê um parecer sobre a incrível coincidência - como se o pai não reconhecesse o próprio filho.  Fiquei tão abismado com atitude desse cretino, que nem respondi ao e-mail.  

O que será que passa na cabeça dessas pessoas? Que os dramaturgos escrevem seus textos no banheiro durante uma cagada? Porque é dessa maneira que tratam nossas obras. Será que não passa na cabeça desses imbecis que levamos dias, semanas, meses e até anos para concluir uma obra? Que ficamos sentados horas e horas a fio diante de uma página em branco com o objetivo de preenchê-la dando vida às personagens? Que não sofremos com eles? Que não vertemos lágrimas ao vê-los sofrer?  Que nos sentimos vazios, ocos, após escrever a palavra FIM? Aquele texto que você gerou, viu nascer e que - como um filho -  tem carinho, amor e todo o cuidado do mundo, não recebe o mesmo cuidado de  outra parte.

Cláudia Dalla Verde escreveu uma frase incrível para o programa de Fada Rock, texto de sua autoria em parceria com Zeca Capellini que montei em 2001: “Entregar uma peça para um diretor é como casar uma filha. Claro que a gente confia na educação que deu à moça, mas será que esse rapaz...?” Não precisava dizer mais nada, não é?

Alguns rapazes mostram-se bons enquanto outros se tornam péssimos genros. Não tem o menor respeito ao autor e fazem o que bem entendem de uma obra. Inserem frases onde não existem, alteram as sequencias ou ordens das falas, cortam frases importantes, enfim, mutilam a sua obra.  Se o dramaturgo escreveu: “Porra”, o ator tem que falar “porra” e não “caralho”, “merda”, “droga”... Tudo o que está escrito tem uma razão de ser. E deve ser respeitado pelos pretensiosos diretores e até pelo mais obscuro dos atores.

Certa vez fui assistir a uma montagem de Macbeth num festival de teatro amador. E o que era para ser uma tragédia, se transformou num freak show. Foi, com certeza, a pior coisa que já vi na vida. A única coisa que prevaleceu foi a arrogância do “diretor”, que disse no debate com os jurados após a apresentação:

 - Shakespeare já morreu e faço o que quiser com a peça dele!

- Pau no seu cu, idiota – foi a primeira coisa que pensei. – E eu ainda tenho que agüentar mais essa.

Mas tive uma Catarse quando um dos jurados se levantou furioso e lhe deu uma tremenda surra verbal. Nunca mais ouvi falar desse ser pretensioso.  Com certeza está trilhando um terreno menos perigoso.

Recentemente encontrei no YouTube um trecho de um texto de minha autoria. Estremeci de pavor ao ler a descrição do vídeo, que fiz questão de selecionar e colocar aqui como está postado lá: apresentação de um teatro di conclusão di escola. aprendemos o texto em menos de uma semana...foi a correria e bagunça.”

Quanto ao vídeo nem preciso comentar. Por pouco não enfartei. Não porque o espetáculo é de um grupo estudantil. Tenho o maior respeito pelos grupos estudantis, pois parte da minha formação vem de lá. Conheço inúmeros grupos que desenvolvem trabalhos excepcionais dentro de escolas estaduais. O que me revolta e me deixa muito triste é saber que o meu texto foi “aprendido” em menos de uma semana e com correria e bagunça.

Infelizmente todos os dramaturgos que conheci e conheço já passaram por essa experiência, a de ver sua obra mutilada. 

Como é triste! Como é triste!

Comentarios (14)add comment

Paulo Sacaldassy said:

Paulo Sacaldassy
...
Pois é, meu colega dramaturgo, como é triste! Ás vezes dá vontade de morrer. Parece que nós, dramaturgos, somos gatos e temos sete vidas, pois morremos toda vez que alguém mutila o nosso texto, mas felizmente renascemos sempre para escrever uma nova história... pelo menos até que este chegue até as mãos de um aventureiro e seja mutilado, esquartejado e se torne quase que irreconhecível.

Abs
Paulo Sacaldassy
 
30/03/2010 | url
Votos: +1

Araceli Kene said:

Araceli Kene
...
Nossa eu fico chocada com a cara de pau;
O respeito foi jogado ao lixo e cada dia ele fica cheio novamente...

Eu amo escrever, bato palmas pra vocês que geram a palavra através dos personagens, das histórias.

Ei esse cara que pisou na obra Macbeth é apenas mais um né (infelizmente) entre muitos idiotas que tem por aí.... Que bom que esse levou o que merecia.

Quando os próprios artistas respeitarem seu trabalho e o trabalho dos outros a arte, enfim, tomará rumos mais respiráveis!
 
02/04/2010
Votos: +1

jomar magalhães said:

jomar magalhães
...
Olá, Júlio!

Seu artigo demonstra toda sua indignação. Ou melhor; nossa indignação.

Vira e mexe eu identifico, pelo Gogle, a montagem de algum texto meu sem o devido pedido de autorização. A propósito, semana agora identifiquei a 4a peça minha que vai parar em Portugal sem nenhum "ora pois, pois".

Pelo menos eles dão o crédito ao autor da obra. Pior alguns grupos que se apropiam da obra, maquiando o título e o autor.

Já o diretor é de fato a figura mais arrogante que existe no teatro. Poucos escapam. O pior é que, via de regra, desejam ser co-autores da obra. Daí buscam meter o dedo onde não entendem e, invariavelmente, comprometem o texto.

Quando o texto é conhecido, como Macbeth, ainda passa pq todos percebem a "violação", mas qdo não é do conhecimento coletivo é que compromete mais ainda.

Já fui assistir à montagem de uma peça minha em que o "sábio" diretor alterou a fala da personagem, provocando um imperdoável erro gramatical, além de perder a estética do texto. Dai o público vê aquela lambança e pensa que o erro é do autor.

Enfim, ser dramaturgo é um ofício mesmo árduo. Basta observar diversos grupos bem estruturados que cobram bilheteria, montando um texto seu, mas que torcem o nariz na hora do percentual referente aos direitos autorais.

Vida que segue...!
 
24/04/2010
Votos: +1

pjdumaresq said:

pjdumaresq
...
Assino embaixo, Julio.
Também padeço do mesmo mal.
Perdi a conta de quantos textos de minha autoria vi mutilados com ou sem autorização.
É um absurdo e uma tremenda falta de respeito com o trabalho intelectual.
Para esses falsos diretores picaretas autor bom é autor morto.
Prefiro que eles vão primeiro que eu.
Abraços e parabéns pelo artigo.

 
12/05/2010 | url
Votos: +0

dreamer said:

dreamer
...
Primeiro quero agradecer ao pessoal que cuida do site, acompanho o site já faz alguns anos e realmente está cada vez mais funcional e prazeroso. Sou ator por amar e acreditar no teatro, e também sou formado em um curso superior de Artes Cênicas. Ao ler o artigo do dramaturgo Julio Carrara, entendo e concordo com sua indignação pela falta de respeito com sua obra e como artista eu não poderia pensar de outra maneira pois estaria sendo incoerente com a arte que escolhi como ofício. No entanto no decorrer da leitura me deparei com a seguinte frase do dramatugo:

"...Se o dramaturgo escreveu: “Porra”, o ator tem que falar “porra” e não “caralho”, “merda”, “droga”... Tudo o que está escrito tem uma razão de ser. E deve ser respeitado pelos pretensiosos diretores e até pelo mais obscuro dos atores."

Diante de tal afirmação me questionei se o dramaturgo não estaria anulando uma arte em função de outra, escrever é uma arte, mas atuar também é. Nós atores não temos que repetir o texto exatamente como foi escrito pelo autor, se assim for não necessitamos representar basta dar o texto para o que público leia, é melhor do que fazê-los assistir uma mera reprodução textual. Cabe ao ator descobrir o que realmente o autor quer dizer, se debruçar em cima do texto e captar a essência da obra e representá-la.Seria isto falta de respeito com o dramaturgo? Acredito que não. Como ator me recuso ser mero reprodutor de texto, texto é literatura, teatro acontece no encontro entre ator e platéia,os atores são mensageiros do que o autor quis dizer, agora temos que ter a liberdade que é inerente a arte teatral de escolher como iremos passar a messagem. Todos devem pagar direitos a quem são devidos, mas me desculpe limitar a arte do ator em função de um texto é algo ultrajante.
 
08/06/2010
Votos: +2

Marcio Motta said:

Marcio Motta
...
Eu, como ator, já li várias peças aqui disponíveis. inclusive as do Julio Carrara. E concordo com o desabafo. Em que ponto chegamos? Usar o texto do outro como se fosse de si próprio é o cúmulo do cinismo!
Um ator que tenta produzir um próprio texto´e muito mais válido, mesmo que um texto ruim, mas pelo menos partiu de sua própria criação. E é o tempo que nos aprimora!
Eu produzi dois textos. Sozinho. E mesmo tendo eles bem cru, o tempo me mostrará onde arrumar e deixá=los mais concretos e literários.
Apoiado.
 
23/06/2010
Votos: +0

MOONEYCHERI18 said:

0
...
I took 1 st loans when I was 20 and that supported my relatives very much. Nevertheless, I require the commercial loan over again.
 
25/06/2010 | url
Votos: +0

Wilton Alexandre said:

0
...
Já tive essa experiência, a criatura ainda veio todo orgulhoso informar que havia inserido um personagem igual ao da novela da globo, segundo ele era o que faltava para o texto ficar perfeito.

Tive que dormir com essa.
 
08/07/2010 | url
Votos: +0

root said:

root
...
ma razão de ser. E deve ser respeitado pelos pretensiosos diretores e até pelo mais obscuro dos atores."

Diante de tal afirmação me questionei se o dramaturgo não estaria anulando uma arte em função de outra, escrever é uma arte, mas atuar também é. Nós atores não temos que repetir o texto exatamente como foi escrito pelo autor, se assim for não necessitamos representar basta dar o texto para o que público leia, é melhor do que fazê-los assistir uma mera reprodução textual. Cabe ao ator descobrir o que realmente o autor quer dizer, se debruçar em cima do texto e captar a essência da obra e representá-la.Seria isto falta de 前列腺炎
前列腺
 
22/07/2010 | url
Votos: +0

root said:

root
...

Diante de tal afirmação me questionei se o dramaturgo não estaria anulando uma arte em função de outra, escrever é uma arte, mas atuar também é. Nós atores não temos que rhttp://www.tk9988.com/Html/news/qlxzt/94862.html 前列腺炎的症状
 
22/07/2010 | url
Votos: +0

Betho Ragusa said:

Betho Ragusa
...
Olá Júlio, já passei por alguns desses incômodos. O que fazer diante de pessoas que pensam conseguir burlar uma obra a seu modo e ainda dizer que é de sua autoria. Concordo plenamente com você, mas também com o comentário de "dreamer" a respeito de:
"...Se o dramaturgo escreveu: “Porra”, o ator tem que falar “porra” e não “caralho”, “merda”, “droga”... Tudo o que está escrito tem uma razão de ser. E deve ser respeitado pelos pretensiosos diretores e até pelo mais obscuro dos atores."

"Diante de tal afirmação me questionei se o dramaturgo não estaria anulando uma arte em função de outra, escrever é uma arte, mas atuar também é. Nós atores não temos que repetir o texto exatamente como foi escrito pelo autor, se assim for não necessitamos representar basta dar o texto para o que público leia, é melhor do que fazê-los assistir uma mera reprodução textual"

Como dramaturgo e ator as vezes fico em cima do muro quando vejo um ator alterando falas de meu personagem, mas se ficar bom faço vista grossa. Ainda não tive decepções nessa parte.
 
07/09/2010
Votos: +2

Eli said:

0
...
Very informative post. Thanks for taking the time to share your view with us.
 
15/09/2010 | url
Votos: +0

Luís Gonçalves said:

Luís Gonçalves
...
Olá eu sou o Luís Gonçalves. Eu também escrevo peças de teatro mas, já escrevi três peças de teatro "Á espera de ser chamado, Os turistas e Uma lição sem o Tonecas". Vem todas da minha imaginação, só a ultima é que é uma pequena adaptação. Há pessoas mesmo parvas e estúpidas. Só espero que não me façam o mesmo aos meus textos, pelo menos ao "À espera de ser chamado" que foi o melhor texto que escrevi.
 
17/09/2010 | url
Votos: +0

credit loans said:

0
...
I think that to receive the business loans from banks you must present a good motivation. However, once I have received a term loan, just because I was willing to buy a building.
 
13/10/2010 | url
Votos: +0

Escreva seu Comentario
menor | maior

security image
Escreva os caracteres mostrados


busy
 

Colunistas

Paulo SacaldassyPaulo Sacaldassy é dramaturgo, roteirista, poeta e letrista. Com artigos construtivos e úteis, escreve sobre teatro em geral e publica todo domingo no Oficina. Leia

Audrey CristinaJulio Carrara é Dramaturgo, ator e diretor. Publica artigos apimentados sobre teatro e a vida artística em geral, dentro e fora dos palcos, toda sexta no Oficina. Leia


Você tem um blog teatral?

Então adicione seu link aqui no Oficina de Teatro e divulgue grátis seu blog sobre teatro. Clique aqui